sábado, 4 de janeiro de 2014



BAR CABALÍSTICO

         Quem pensa que a vida no bar é só promiscuidade se engana e muito. Exceto talvez para aquele grupinho de amigos que vai de bar em bar para paquerar ou encher a cara.
         Para quem frequenta o mesmo bar diariamente, há um certo código de conduta a ser seguido. Eu também não imaginava que algo assim existisse. Não era muito de sair, na verdade eu olhava para os senhores sozinhos sentados naqueles botecos de esquina bebendo logo pela manhã e sentia pena. Hoje os vejo iguaizinhos a mim.
         Sim somos iguais em nossas fragilidades, defeitos, tristezas, apenas os eventos que nos levaram a frequentar o bar diariamente são outros, mas dá na mesma que comprar compulsivamente, jogar jogos de internet, fazer sexo com estranhos, se prender a relacionamentos abusivos. Os sentimentos por trás destes vícios tendem a ser bem parecidos. Foi isso que eu aprendi nos anos que passei noites inteiras, dia após dia na mesma esquina, no mesmo bar.
         O bar tem muito a ensinar, desde a conduta a se seguir, como o cumprimentar de quem já está lá quando você chega, até de que lado vai ficar quando um casal se separa; até mesmo a elevação do caráter, com mais tolerância, paciência, e porque não amor?
         Forma-se uma família meio disfuncional, mas nela é preciso respeitar o espaço do outro, a rotina do outro, temos um papel a cumprir, e surge esta oportunidade de aprender o perdão, de ouvir o próximo, de fazer uma caridade e até de vivenciar o amor que não temos dentro de casa.
         Ouvimos os problemas alheios para sermos também ouvidos, somos gentis com vendedores ambulantes persistentes e flanelinhas que encontraremos no dia seguinte inevitavelmente. Respeitamos os frequentadores mais velhos da casa pois eles têm mais intimidade com o dono do bar, os garçons, e logo, mais privilégios. Obedecemos as regras, concordamos com a opinião na maioria das vezes com o dono do estabelecimento que nos é sempre simpático e atencioso proporcionalmente ao tamanho da conta e de nossa assiduidade.
         Desta forma mesmo nos dias mais movimentados, de casa cheia, temos um tratamento diferenciado, recebemos olhares de admiração ao chegar no bar lotado e cumprimentar a maioria das pessoas. É como ser popular nos filmes de escola americano. Isso eleva a auto- estima e massageia o ego como poucas coisas na vida.
         Quando se é freguês especial, aquela placa: “Não Vendemos Fiado” não existe, isso é pra quem é “de fora”. Se você está incluído no grupo, não faz mal criar atrito no namoro alheio, beijar ex do amigo, paquerar quem não devia, há uma certa tolerância para a maioria dos defeitos de quem é “de casa”. 
         Traição de fato não é mesmo bem vista seja no namoro, no casamento, ou de bar. Frequentar outro bar, ou deixar o bar para ir dançar por exemplo é execrável. Gera até um sentimento de culpa, tem gente que sai de fininho, tenta disfarçar, mas o dono do bar já aprendeu a lição da tolerância há muito tempo e no dia seguinte fica tudo bem.
         É melhor trair o bar do que o namoro. Nas brigas de relacionamento, de família, o problema não morre, a culpa gera castigo sempre. No bar não, o dono do bar jamais vai jogar na sua cara que você foi pra outro bar tal dia; nem que você tem tal defeito; nem cobrar um favor pela conta que ele pendurou pra você outro dia. Os amigos do bar vão rir, tirar o maior sarro, mas não vão espalhar por aí as catástrofes que o álcool causa em você. Só a família cobra que pare de beber. No bar não existe cobrança.
         Quase dá a impressão de um amor incondicional, daqueles que não importa a gravidade do erro, nem quantas quedas, quantas dívidas, ainda assim, lá sempre há de existir um sorriso, braços abertos, um par de ouvidos atentos e é claro, o álcool.
         Não digo que todos os butequeiros sejam alcóolatras ou façam uso abusivo do álcool, mesmo que a maioria beba mais do que deveria. Só que no bar além disso existe algo mais que nos conforta, consola, diverte e alegra que vai além das drogas. Ainda que estas estejam sempre presente e acessíveis como em qualquer outro lugar.
         Quanto às drogas ilícitas, a diferença é que no bar sempre tem a turma que vai lá fora fumar maconha, que sai para comprar cocaína, ou liga para alguém entregar, está tudo ali muito à vista. Para quem fica diariamente em contato com tantas pessoas, é só escolher a turma que te apetece mais e pronto, você já tem sua nova família, melhores amigos de vidas passadas, irmãos separados na maternidade e sua felicidade instantânea.
         Fica difícil resistir a não dar aquela passadinha na quarta ou quinta-feira, daí o vício te pegou. Exatamente como qualquer outro tipo de droga, pensamos: vou só no final de semana. Depois de um tempo: vou só no meio da semana pra relaxar, ou pra ver o jogo. É como se desenvolvêssemos tolerância e precisássemos de mais e mais doses. Acabamos indo quase todos os dias e ficando até fechar.
         Sim, fechar a porta do bar com o dono e ir com ele para outro bar é o atestado de que você faz parte da família. É um motivo de orgulho intenso, um sonho que se realiza. Aquela mãe que não te nega nada, não te cobra, e aceita tudo de você finalmente te reconhece, te diz SIM. Isso é bem mais que embriagante.
         Essa mãe não vai te dar bronca, mas como eu disse, as regras existem e o que controla nosso comportamento no bar geralmente é algo perigoso como um câncer, que cresce, se espalha sorrateiro e logo perde sua forma. Aprendemos rápido a evitar este mal, a fofoca.
         Ficar mal visto, “queimado no bar” é um grande temor. É através das conversas que aprendemos que as pessoas que bebem e dão trabalho, que usam droga além da conta ou causam algum “bafo” são mal vistas. E isso se espalha rapidamente, a briga que o fulano causou, o carro que bateu, quem entrou junto com quem pra cheirar no banheiro e quem estava muito louco e deu trabalho na hora de ir embora.
         A falação sempre gera uma discussão, uma intriga, e algumas pessoas se afastam, passam meses longe para “limpar” a ficha e depois voltam. Alguns jamais conseguem voltar.
         Para os que conseguem ver um pouco mais além há uma lição mais importante, além de não beber demais, e não usar drogas, a de não julgar e de não falar mal do próximo pois todos estivemos dos dois lados desta mesa.
         É, o bar ensina, e com ele crescemos e se formos sortudos, até mudamos. Surge esta oportunidade de se colocar no lugar do outro, tentar entender sua situação e pra alguém que acredita em Cristo, vê-lo como irmão.
         Nunca eu imaginaria falar em Cristo lembrando dos meus anos de butequeira, mas o que realmente ficou foi isso, que depois de tudo eu vi que aquela OUTRA família, também era minha verdadeira família e eu amava cada pessoa desde o cara que se sentava sozinho, via coisas e “falava com Deus”, às minhas “filhas” que eu “adotei” e as pessoas com quem eu tive brigas, ameacei bater, xinguei, amaldiçoei, hoje eu amo de coração. Eu pude transcender, Jung talvez possa explicar melhor.
         As meninas que eu adotei eu o fiz pois elas eram bem mais novas e eu realmente acreditava que poderia ser um bom modelo para elas. Foi muito antes de ouvir as histórias de pais separados, de pais que abandonaram as mães, dos abusos, da pobreza, dos pais que faleceram sem conversar com os filhos por uma briga boba...
         Adotei essas meninas como filhas e todos os outros como irmãos, mas só hoje eu entendo que estas dores eram semelhantes as minhas, que mesmo dentro de uma reclamação banal do trabalho, de dinheiro, da família, da esposa, se escondia a necessidade de satisfazer alguém além de si mesmo; uma luta, um esforço hercúleo para manter a persona.
         No bar podíamos reclamar de tudo isso, beber, se drogar, até a persona sumir pois era permitido e até desejável.
         Acho que esta era a maior das drogas, a mais viciante, a impressão de estar livre para ser você mesmo. Digo impressão, pois era num ambiente afastado da realidade, sim podemos aprender a transcender como quem toma chá de ayahuasca ou medita, mas uma hora teremos que acordar, uma hora o bar tem que fechar.
         Outra opção para se aceitar e viver livre é fazer terapia, mas leva tempo e custa caro. O amor incondicional que esperamos dos pais e não temos, o bar nos vende em troca de cerveja e conversa jogada fora, o que sai muito mais barato.
         Mas há uma grande diferença entre ir ao bar, frequentar um bar e viver num bar. Para sobreviver num bar é preciso habilidade de aprender, socializar, se humanizar e até amar.
         Viver no bar diariamente é um vício, como adicção a jogos de azar, a drogas, modificação corporal, esportes radicais e religião. É o ópio do cidadão comum que sai do trabalho, do executivo que deixa o escritório, do jovem que quer curtir a vida, do aposentado solitário e da viúva; que por tantos anos eu olhei à distância como “eles” e hoje vejo como “meus”, meus irmãos, meus iguais. Carentes de compreensão, de aceitação, querendo crescer, tentando aprender a viver melhor, mas com medo.
         Dentro de cada história há alguém que se esconde do outro lado da mesa atrás de uma garrafa, de ninguém mais além de si mesmo. Quando aprendemos a olhar para dentro, a aceitar o que vemos, fica fácil aceitar a falação da mesa ao lado, a intriga que o outro provoca, a briga do casal que só se entende brigando, o vício do amigo, o amor do pai que só foi o bastante para dar a vida e partir, pois ficar talvez fizesse mais mal do que bem.
         Feitos mais incríveis ainda são possíveis, como perdoar a traição sem trair de volta, ficar bravo sem sentir raiva, amar sem estar perto, ver as dificuldades com alegria e não ter que comprar no bar o ópio de cada dia.  

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